{"id":41119,"date":"2019-02-05T08:55:24","date_gmt":"2019-02-05T07:55:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.claret.org\/documento-sobre-a-fraternidade-humana-pela-paz-mundial-e-a-convivencia-comum\/"},"modified":"2020-10-13T17:18:32","modified_gmt":"2020-10-13T15:18:32","slug":"documento-sobre-a-fraternidade-humana-pela-paz-mundial-e-a-convivencia-comum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.claret.org\/pt-pt\/documento-sobre-a-fraternidade-humana-pela-paz-mundial-e-a-convivencia-comum\/","title":{"rendered":"DOCUMENTO SOBRE A FRATERNIDADE HUMANA PELA PAZ MUNDIAL E A CONVIV\u00caNCIA COMUM"},"content":{"rendered":"<p>Pref\u00e1cio<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A f\u00e9 leva o crente a ver no outro um irm\u00e3o que se deve apoiar e amar. Da f\u00e9 em Deus, que criou o universo, as criaturas e todos os seres humanos \u2013 iguais pela Sua Miseric\u00f3rdia \u2013, o crente \u00e9 chamado a expressar esta fraternidade humana, salvaguardando a cria\u00e7\u00e3o e todo o universo e apoiando todas as pessoas, especialmente as mais necessitadas e pobres.<\/p>\n<p>Partindo deste valor transcendente, em v\u00e1rios encontros dominados por uma atmosfera de fraternidade e amizade, compartilhamos as alegrias, as tristezas e os problemas do mundo contempor\u00e2neo, a n\u00edvel do progresso cient\u00edfico e t\u00e9cnico, das conquistas terap\u00eauticas, da era digital, dos mass-media, das comunica\u00e7\u00f5es; a n\u00edvel da pobreza, das guerras e das afli\u00e7\u00f5es de tantos irm\u00e3os e irm\u00e3s em diferentes partes do mundo, por causa da corrida \u00e0s armas, das injusti\u00e7as sociais, da corrup\u00e7\u00e3o, das desigualdades, da degrada\u00e7\u00e3o moral, do terrorismo, da discrimina\u00e7\u00e3o, do extremismo e de muitos outros motivos.<\/p>\n<p>De tais fraternas e sinceras acarea\u00e7\u00f5es que tivemos e do encontro cheio de esperan\u00e7a num futuro luminoso para todos os seres humanos, nasceu a ideia deste \u00abDocumento sobre a Fraternidade Humana\u00bb. Um documento pensado com sinceridade e seriedade para ser uma declara\u00e7\u00e3o conjunta de boas e leais vontades, capaz de convidar todas as pessoas, que trazem no cora\u00e7\u00e3o a f\u00e9 em Deus e a f\u00e9 na fraternidade humana, a unir-se e trabalhar em conjunto, de modo que tal documento se torne para as novas gera\u00e7\u00f5es um guia rumo \u00e0 cultura do respeito m\u00fatuo, na compreens\u00e3o da grande gra\u00e7a divina que torna irm\u00e3os todos os seres humanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Documento<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em nome de Deus, que criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade e os chamou a conviver entre si como irm\u00e3os, a povoar a terra e a espalhar sobre ela os valores do bem, da caridade e da paz.<\/p>\n<p>Em nome da alma humana inocente que Deus proibiu de matar, afirmando que qualquer um que mate uma pessoa \u00e9 como se tivesse morto toda a humanidade e quem quer que salve uma pessoa \u00e9 como se tivesse salvo toda a humanidade.<\/p>\n<p>Em nome dos pobres, dos miser\u00e1veis, dos necessitados e dos marginalizados, a quem Deus ordenou socorrer como um dever exigido a todos os homens e de modo particular \u00e0s pessoas facultosas e abastadas.<\/p>\n<p>Em nome dos \u00f3rf\u00e3os, das vi\u00favas, dos refugiados e dos exilados das suas casas e dos seus pa\u00edses; de todas as v\u00edtimas das guerras, das persegui\u00e7\u00f5es e das injusti\u00e7as; dos fracos, de quantos vivem no medo, dos prisioneiros de guerra e dos torturados em qualquer parte do mundo, sem distin\u00e7\u00e3o alguma.<\/p>\n<p>Em nome dos povos que perderam a seguran\u00e7a, a paz e a conviv\u00eancia comum, tornando-se v\u00edtimas das destrui\u00e7\u00f5es, das ru\u00ednas e das guerras.<\/p>\n<p>Em nome da \u00abfraternidade humana\u00bb, que abra\u00e7a todos os homens, une-os e torna-os iguais.<\/p>\n<p>Em nome desta fraternidade dilacerada pelas pol\u00edticas de integralismo e divis\u00e3o e pelos sistemas de lucro desmesurado e pelas tend\u00eancias ideol\u00f3gicas odiosas, que manipulam as a\u00e7\u00f5es e os destinos dos homens.<\/p>\n<p>Em nome da liberdade, que Deus deu a todos os seres humanos, criando-os livres e enobrecendo-os com ela.<\/p>\n<p>Em nome da justi\u00e7a e da miseric\u00f3rdia, fundamentos da prosperidade e pilares da f\u00e9.<\/p>\n<p>Em nome de todas as pessoas de boa vontade, presentes em todos os cantos da terra.<\/p>\n<p>Em nome de Deus e de tudo isto, Al-Azhar al-Sharif \u2013 com os mu\u00e7ulmanos do Oriente e do Ocidente &#8211; juntamente com a Igreja Cat\u00f3lica \u2013 com os cat\u00f3licos do Oriente e do Ocidente \u2013 declaramos adotar a cultura do di\u00e1logo como caminho; a colabora\u00e7\u00e3o comum como conduta; o conhecimento m\u00fatuo como m\u00e9todo e crit\u00e9rio.<\/p>\n<p>N\u00f3s \u2013 crentes em Deus, no encontro final com Ele e no Seu Julgamento \u2013, a partir da nossa responsabilidade religiosa e moral e atrav\u00e9s deste Documento, rogamos a n\u00f3s mesmos e aos l\u00edderes do mundo inteiro, aos art\u00edfices da pol\u00edtica internacional e da economia mundial, para se comprometer seriamente na difus\u00e3o da toler\u00e2ncia, da conviv\u00eancia e da paz; para intervir, o mais breve poss\u00edvel, a fim de se impedir o derramamento de sangue inocente e acabar com as guerras, os conflitos, a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e o decl\u00ednio cultural e moral que o mundo vive atualmente.<\/p>\n<p>Dirigimo-nos aos intelectuais, aos fil\u00f3sofos, aos homens de religi\u00e3o, aos artistas, aos operadores dos mass-media e aos homens de cultura em todo o mundo, para que redescubram os valores da paz, da justi\u00e7a, do bem, da beleza, da fraternidade humana e da conviv\u00eancia comum, para confirmar a import\u00e2ncia destes valores como \u00e2ncora de salva\u00e7\u00e3o para todos e procurar difundi-los por toda a parte.<\/p>\n<p>Partindo duma reflex\u00e3o profunda sobre a nossa realidade contempor\u00e2nea, apreciando os seus \u00eaxitos e vivendo as suas dores, os seus dramas e calamidades, esta Declara\u00e7\u00e3o acredita firmemente que, entre as causas mais importantes da crise do mundo moderno, se contam uma consci\u00eancia humana anestesiada e o afastamento dos valores religiosos, bem como o predom\u00ednio do individualismo e das filosofias materialistas que divinizam o homem e colocam os valores mundanos e materiais no lugar dos princ\u00edpios supremos e transcendentes.<\/p>\n<p>N\u00f3s, embora reconhecendo os passos positivos que a nossa civiliza\u00e7\u00e3o moderna tem feito nos campos da ci\u00eancia, da tecnologia, da medicina, da ind\u00fastria e do bem-estar, particularmente nos pa\u00edses desenvolvidos, ressaltamos que, juntamente com tais progressos hist\u00f3ricos, grandes e apreciados, se verifica uma deteriora\u00e7\u00e3o da \u00e9tica, que condiciona a atividade internacional, e um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade. Tudo isto contribui para disseminar uma sensa\u00e7\u00e3o geral de frustra\u00e7\u00e3o, solid\u00e3o e desespero, levando muitos a cair na voragem do extremismo ateu e agn\u00f3stico ou ent\u00e3o no integralismo religioso, no extremismo e no fundamentalismo cego, arrastando assim outras pessoas a render-se a formas de depend\u00eancia e autodestrui\u00e7\u00e3o individual e coletiva.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria afirma que o extremismo religioso e nacional e a intoler\u00e2ncia geraram no mundo, quer no Ocidente quer no Oriente, aquilo que se poderia chamar os sinais duma \u00abterceira guerra mundial aos peda\u00e7os\u00bb; sinais que, em v\u00e1rias partes do mundo e em diferentes condi\u00e7\u00f5es tr\u00e1gicas, come\u00e7aram a mostrar o seu rosto cruel; situa\u00e7\u00f5es de que n\u00e3o se sabe exatamente quantas v\u00edtimas, vi\u00favas e \u00f3rf\u00e3os produziram. Al\u00e9m disso, existem outras \u00e1reas que se preparam a tornar-se palco de novos conflitos, onde nascem focos de tens\u00e3o e se acumulam armas e muni\u00e7\u00f5es, numa situa\u00e7\u00e3o mundial dominada pela incerteza, pela dece\u00e7\u00e3o e pelo medo do futuro e controlada por m\u00edopes interesses econ\u00f3micos.<\/p>\n<p>Afirmamos igualmente que as graves crises pol\u00edticas, a injusti\u00e7a e a falta duma distribui\u00e7\u00e3o equitativa dos recursos naturais \u2013 dos quais beneficia apenas uma minoria de ricos, em detrimento da maioria dos povos da terra \u2013 geraram, e continuam a faz\u00ea-lo, enormes quantidades de doentes, necessitados e mortos, causando crises letais de que s\u00e3o v\u00edtimas v\u00e1rios pa\u00edses, n\u00e3o obstante as riquezas naturais e os recursos das gera\u00e7\u00f5es jovens que os caracterizam. A respeito de tais crises que fazem morrer \u00e0 fome milh\u00f5es de crian\u00e7as, j\u00e1 reduzidas a esqueletos humanos por causa da pobreza e da fome, reina um inaceit\u00e1vel sil\u00eancio internacional.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, \u00e9 evidente qu\u00e3o essencial seja a fam\u00edlia, como n\u00facleo fundamental da sociedade e da humanidade, para dar \u00e0 luz filhos, cri\u00e1-los, educ\u00e1-los, proporcionar-lhes uma moral s\u00f3lida e a prote\u00e7\u00e3o familiar. Atacar a institui\u00e7\u00e3o familiar, desprezando-a ou duvidando da import\u00e2ncia de seu papel, constitui um dos males mais perigosos do nosso tempo.<\/p>\n<p>Atestamos tamb\u00e9m a import\u00e2ncia do despertar do sentido religioso e da necessidade de o reanimar nos cora\u00e7\u00f5es das novas gera\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s duma educa\u00e7\u00e3o sadia e da ades\u00e3o aos valores morais e aos justos ensinamentos religiosos, para enfrentarem as tend\u00eancias individualistas, ego\u00edstas, conflituais, o radicalismo e o extremismo cego em todas as suas formas e manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O primeiro e mais importante objetivo das religi\u00f5es \u00e9 o de crer em Deus, honr\u00e1-Lo e chamar todos os homens a acreditarem que este universo depende de um Deus que o governa: \u00e9 o Criador que nos moldou com a Sua Sabedoria divina e nos concedeu o dom da vida para o guardarmos. Um dom que ningu\u00e9m tem o direito de tirar, amea\u00e7ar ou manipular a seu bel-prazer; pelo contr\u00e1rio, todos devem preservar este dom da vida desde o seu in\u00edcio at\u00e9 \u00e0 sua morte natural. Por isso, condenamos todas as pr\u00e1ticas que amea\u00e7am a vida, como os genoc\u00eddios, os atos terroristas, os deslocamentos for\u00e7ados, o tr\u00e1fico de \u00f3rg\u00e3os humanos, o aborto e a eutan\u00e1sia e as pol\u00edticas que apoiam tudo isto.<\/p>\n<p>De igual modo declaramos \u2013 firmemente \u2013 que as religi\u00f5es nunca incitam \u00e0 guerra e n\u00e3o solicitam sentimentos de \u00f3dio, hostilidade, extremismo nem convidam \u00e0 viol\u00eancia ou ao derramamento de sangue. Estas calamidades s\u00e3o fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso pol\u00edtico das religi\u00f5es e tamb\u00e9m das interpreta\u00e7\u00f5es de grupos de homens de religi\u00e3o que abusaram \u2013 nalgumas fases da hist\u00f3ria \u2013 da influ\u00eancia do sentimento religioso sobre os cora\u00e7\u00f5es dos homens para os levar \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o daquilo que n\u00e3o tem nada a ver com a verdade da religi\u00e3o, para alcan\u00e7ar fins pol\u00edticos e econ\u00f3micos mundanos e m\u00edopes. Por isso, pedimos a todos que cessem de instrumentalizar as religi\u00f5es para incitar ao \u00f3dio, \u00e0 viol\u00eancia, ao extremismo e ao fanatismo cego e deixem de usar o nome de Deus para justificar atos de homic\u00eddio, de ex\u00edlio, de terrorismo e de opress\u00e3o. Pedimo-lo pela nossa f\u00e9 comum em Deus, que n\u00e3o criou os homens para ser assassinados ou lutar uns com os outros, nem para ser torturados ou humilhados na sua vida e na sua exist\u00eancia. Com efeito Deus, o Todo-Poderoso, n\u00e3o precisa de ser defendido por ningu\u00e9m e n\u00e3o quer que o Seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas.<\/p>\n<p>Este Documento, de acordo com os Documentos Internacionais anteriores que destacaram a import\u00e2ncia do papel das religi\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o da paz mundial, atesta quanto segue:<\/p>\n<ul>\n<li>A forte convic\u00e7\u00e3o de que os verdadeiros ensinamentos das religi\u00f5es convidam a permanecer ancorados aos valores da paz; apoiar os valores do conhecimento m\u00fatuo, da fraternidade humana e da conviv\u00eancia comum; restabelecer a sabedoria, a justi\u00e7a e a caridade e despertar o sentido da religiosidade entre os jovens, para defender as novas gera\u00e7\u00f5es a partir do dom\u00ednio do pensamento materialista, do perigo das pol\u00edticas da avidez do lucro desmesurado e da indiferen\u00e7a baseadas na lei da for\u00e7a e n\u00e3o na for\u00e7a da lei.<\/li>\n<li>A liberdade \u00e9 um direito de toda a pessoa: cada um goza da liberdade de credo, de pensamento, de express\u00e3o e de a\u00e7\u00e3o. O pluralismo e as diversidades de religi\u00e3o, de cor, de sexo, de ra\u00e7a e de l\u00edngua fazem parte daquele s\u00e1bio des\u00edgnio divino com que Deus criou os seres humanos. Esta Sabedoria divina \u00e9 a origem donde deriva o direito \u00e0 liberdade de credo e \u00e0 liberdade de ser diferente. Por isso, condena-se o facto de for\u00e7ar as pessoas a aderir a uma determinada religi\u00e3o ou a uma certa cultura, bem como de impor um estilo de civiliza\u00e7\u00e3o que os outros n\u00e3o aceitam.<\/li>\n<li>A justi\u00e7a baseada na miseric\u00f3rdia \u00e9 o caminho a percorrer para se alcan\u00e7ar uma vida digna, a que tem direito todo o ser humano.<\/li>\n<li>O di\u00e1logo, a compreens\u00e3o, a difus\u00e3o da cultura da toler\u00e2ncia, da aceita\u00e7\u00e3o do outro e da conviv\u00eancia entre os seres humanos contribuiriam significativamente para a redu\u00e7\u00e3o de muitos problemas econ\u00f3micos, sociais, pol\u00edticos e ambientais que afligem grande parte do g\u00e9nero humano.<\/li>\n<li>O di\u00e1logo entre crentes significa encontrar-se no espa\u00e7o enorme dos valores espirituais, humanos e sociais comuns, e investir isto na propaga\u00e7\u00e3o das mais altas virtudes morais que as religi\u00f5es solicitam; significa tamb\u00e9m evitar as discuss\u00f5es in\u00fateis.<\/li>\n<li>A prote\u00e7\u00e3o dos locais de culto \u2013 templos, igrejas e mesquitas \u2013 \u00e9 um dever garantido pelas religi\u00f5es, pelos valores humanos, pelas leis e pelas conven\u00e7\u00f5es internacionais. Qualquer tentativa de atacar locais de culto ou de os amea\u00e7ar atrav\u00e9s de atentados, explos\u00f5es ou demoli\u00e7\u00f5es \u00e9 um desvio dos ensinamentos das religi\u00f5es, bem como uma clara viola\u00e7\u00e3o do direito internacional.<\/li>\n<li>O terrorismo execr\u00e1vel que amea\u00e7a a seguran\u00e7a das pessoas, tanto no Oriente como no Ocidente, tanto no Norte como no Sul, espalhando p\u00e2nico, terror e pessimismo n\u00e3o se deve \u00e0 religi\u00e3o \u2013 embora os terroristas a instrumentalizem \u2013 mas tem origem no c\u00famulo de interpreta\u00e7\u00f5es erradas dos textos religiosos, nas pol\u00edticas de fome, de pobreza, de injusti\u00e7a, de opress\u00e3o, de arrog\u00e2ncia; por isso, \u00e9 necess\u00e1rio interromper o apoio aos movimentos terroristas atrav\u00e9s do fornecimento de dinheiro, de armas, de planos ou justifica\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m a cobertura medi\u00e1tica, e considerar tudo isto como crimes internacionais que amea\u00e7am a seguran\u00e7a e a paz mundial. \u00c9 preciso condenar tal terrorismo em todas as suas formas e manifesta\u00e7\u00f5es.<\/li>\n<li>O conceito de cidadania baseia-se na igualdade dos direitos e dos deveres, sob cuja sombra todos gozam da justi\u00e7a. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio empenhar-se por estabelecer nas nossas sociedades o conceito de cidadania plena e renunciar ao uso discriminat\u00f3rio do termo minorias, que traz consigo as sementes de se sentir isolado e da inferioridade; isto prepara o terreno para as hostilidades e a disc\u00f3rdia e subtrai as conquistas e os direitos religiosos e civis de alguns cidad\u00e3os, discriminando-os.<\/li>\n<li>O relacionamento entre Ocidente e Oriente \u00e9 uma necessidade m\u00fatua indiscut\u00edvel, que n\u00e3o pode ser comutada nem transcurada, para que ambos se possam enriquecer mutuamente com a civiliza\u00e7\u00e3o do outro atrav\u00e9s da troca e do di\u00e1logo das culturas. O Ocidente poderia encontrar na civiliza\u00e7\u00e3o do Oriente rem\u00e9dios para algumas das suas doen\u00e7as espirituais e religiosas causadas pelo dom\u00ednio do materialismo. E o Oriente poderia encontrar na civiliza\u00e7\u00e3o do Ocidente tantos elementos que o podem ajudar a salvar-se da fragilidade, da divis\u00e3o, do conflito e do decl\u00ednio cient\u00edfico, t\u00e9cnico e cultural. \u00c9 importante prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s diferen\u00e7as religiosas, culturais e hist\u00f3ricas que s\u00e3o uma componente essencial na forma\u00e7\u00e3o da personalidade, da cultura e da civiliza\u00e7\u00e3o oriental; e \u00e9 importante consolidar os direitos humanos gerais e comuns, para ajudar a garantir uma vida digna para todos os homens no Oriente e no Ocidente, evitando o uso da pol\u00edtica de duas medidas.<\/li>\n<li>\u00c9 uma necessidade indispens\u00e1vel reconhecer o direito da mulher \u00e0 instru\u00e7\u00e3o, ao trabalho, ao exerc\u00edcio dos seus direitos pol\u00edticos. Al\u00e9m disso, deve-se trabalhar para libert\u00e1-la das press\u00f5es hist\u00f3ricas e sociais contr\u00e1rias aos princ\u00edpios da pr\u00f3pria f\u00e9 e da pr\u00f3pria dignidade. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio proteg\u00ea-la da explora\u00e7\u00e3o sexual e de a tratar como mercadoria ou meio de prazer ou de ganho econ\u00f3mico. Por isso, devem-se interromper todas as pr\u00e1ticas desumanas e os costumes triviais que humilham a dignidade da mulher e trabalhar para modificar as leis que impedem as mulheres de gozarem plenamente dos seus direitos.<\/li>\n<li>A tutela dos direitos fundamentais das crian\u00e7as a crescer num ambiente familiar, \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 assist\u00eancia \u00e9 um dever da fam\u00edlia e da sociedade. Tais direitos devem ser garantidos e tutelados para que n\u00e3o faltem e n\u00e3o sejam negados a nenhuma crian\u00e7a em nenhuma parte do mundo. \u00c9 preciso condenar qualquer pr\u00e1tica que viole a dignidade das crian\u00e7as ou os seus direitos. Igualmente importante \u00e9 velar contra os perigos a que est\u00e3o expostas \u2013 especialmente no ambiente digital \u2013 e considerar como crime o tr\u00e1fico da sua inoc\u00eancia e qualquer viola\u00e7\u00e3o da sua inf\u00e2ncia.<\/li>\n<li>A prote\u00e7\u00e3o dos direitos dos idosos, dos vulner\u00e1veis, dos portadores de defici\u00eancia e dos oprimidos \u00e9 uma exig\u00eancia religiosa e social que deve ser garantida e protegida atrav\u00e9s de legisla\u00e7\u00f5es rigorosas e da aplica\u00e7\u00e3o das conven\u00e7\u00f5es internacionais a este respeito.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Por fim, atrav\u00e9s da coopera\u00e7\u00e3o conjunta, a Igreja Cat\u00f3lica e a al-Azhar anunciam e prometem levar este Documento \u00e0s Autoridades, aos L\u00edderes influentes, aos homens de religi\u00e3o do mundo inteiro, \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es regionais e internacionais competentes, \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, \u00e0s institui\u00e7\u00f5es religiosas e aos l\u00edderes do pensamento; e empenhar-se na divulga\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios desta Declara\u00e7\u00e3o em todos os n\u00edveis regionais e internacionais, solicitando que se traduzam em pol\u00edticas, decis\u00f5es, textos legislativos, programas de estudo e materiais de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al-Azhar e a Igreja Cat\u00f3lica pedem que este Documento se torne objeto de pesquisa e reflex\u00e3o em todas as escolas, nas universidades e nos institutos de educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o, a fim de contribuir para criar novas gera\u00e7\u00f5es que levem o bem e a paz e defendam por todo o lado o direito dos oprimidos e dos marginalizados.<\/p>\n<p>Ao concluir, almejamos que esta Declara\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>seja um convite \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o e \u00e0 fraternidade entre todos os crentes, mais ainda, entre os crentes e os n\u00e3o-crentes, e entre todas as pessoas de boa vontade;<\/p>\n<p>seja um apelo a toda a consci\u00eancia viva, que repudia a viol\u00eancia aberrante e o extremismo cego; um apelo a quem ama os valores da toler\u00e2ncia e da fraternidade, promovidos e encorajados pelas religi\u00f5es;<\/p>\n<p>seja um testemunho da grandeza da f\u00e9 em Deus, que une os cora\u00e7\u00f5es divididos e eleva a alma humana;<\/p>\n<p>seja um s\u00edmbolo do abra\u00e7o entre o Oriente e o Ocidente, entre o Norte e o Sul e entre todos aqueles que acreditam que Deus nos criou para nos conhecermos, cooperarmos entre n\u00f3s e vivermos como irm\u00e3os que se amam.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 o que esperamos e tentaremos realizar a fim de alcan\u00e7ar uma paz universal de que gozem todos os homens nesta vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Abu Dabhi, 4 de fevereiro de 2019<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sua Santidade<\/p>\n<p>Papa Francisco<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gr\u00e3o Imame de Al-Azhar<\/p>\n<p>Ahmad Al-Tayyeb<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pref\u00e1cio &nbsp; A f\u00e9 leva o crente a ver no outro um irm\u00e3o que se deve apoiar e amar. Da f\u00e9 em Deus, que criou o universo, as criaturas e todos os seres humanos \u2013 iguais pela Sua Miseric\u00f3rdia \u2013, o crente \u00e9 chamado a expressar esta fraternidade humana, salvaguardando a cria\u00e7\u00e3o e todo o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":49,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[505,606],"tags":[],"class_list":["post-41119","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias-eclesiasticas-pt-pt","category-painel-dos-avisos"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.claret.org\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/logo-web-cmf-min.png?fit=200%2C200&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pdaBmi-aHd","jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.claret.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41119","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.claret.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.claret.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.claret.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.claret.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41119"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.claret.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41119\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.claret.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.claret.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41119"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.claret.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41119"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.claret.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41119"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}