Todo dia 29 de novembro celebro com gratidão três dons recebidos do Senhor: o primeiro, em 1932, o nascimento do meu pai, que acaba de completar 90 anos; o segundo, em 1982, quando eu tinha 10 anos, meu batismo e minha primeira comunhão; e o terceiro, em 1997, há exatamente 25 anos, minha ordenação ao sacerdócio.
Ao contrário das minhas irmãs, que foram batizadas logo ao nascer, eu tive que esperar. Meus pais queriam que meus padrinhos viessem de cidades diferentes e distantes para a minha aldeia. Quando eu tinha 10 anos, senti um forte chamado interior para participar da Ceia do Senhor, mas não podia porque não era batizado. Então conversei com meus pais, escolhi meus próprios padrinhos e pedi ao meu pároco que me desse catequese. Aproveitando a festa de 50 anos do meu pai, recebi os sacramentos do Batismo e da Eucaristia. Lembro-me de que muitas pessoas vieram à casa; no entanto, destaco a presença da irmã do meu avô paterno, que era freira salesiana, Irmã Carmen Sánchez. Ela era uma senhora idosa que morava no lar de idosos da sua congregação em Lima, a cerca de 800 km da minha aldeia. Em meio à celebração, quando a música estava alta, ela me chamou de lado antes de se recolher para dormir e me disse com um olhar cheio de ternura e alegria: “Querido sobrinho, não pense que vim de tão longe para participar da celebração do seu pai; na verdade, vim porque hoje é o dia mais importante da sua vida: você recebeu a graça de ser filho de Deus e, além disso, Ele lhe deu o Corpo do Seu Filho para que você possa estar intimamente unido a Ele”. Certamente, naquele momento, eu não compreendia a profundidade do que minha tia idosa me dizia; no entanto, suas palavras tocaram minha alma infantil e me fizeram intuir, com alegria e espanto, a proximidade e a novidade da Presença de Deus. Creio que, naquele contexto, comecei a perceber o chamado de Deus para seguir Jesus de uma maneira especial.
Escolhi esta data para a minha ordenação sacerdotal porque me permitiu celebrar com maior clareza a continuidade da obra de Deus na minha vida: Ele, que me deu a vida através dos meus pais e me chamou para ser cristão, oferecia-me naquele momento o dom do ministério sacerdotal para servir o seu Povo como missionário claretiano.
Alegro-me em celebrar este aniversário convosco, minha família missionária. Ao olhar para o caminho que percorremos, três palavras brotam do meu coração: gratidão, perdão e renovação.
Quero agradecer a Deus por seu amor. Canto, humildemente e com firmeza, o que oramos no Salmo 146: “O Senhor é grande e poderoso… a sua sabedoria não tem medida. O Senhor ampara os humildes…” (Sl 146,5-6). Sou testemunha de tanto amor recebido ao longo da minha vida. Deus cuidou de mim com a sua graça. Como não ser grato pelo dom de celebrar a Eucaristia todos os dias em comunidade e de nos unirmos ao mistério do Deus encarnado e entregue? Sou grato pelo dom de ser filho do Coração de Maria; a proximidade maternal desse Coração inspirou meu serviço sacerdotal, convidando-me a buscar profundidade no cotidiano e a ser uma testemunha cordial da misericórdia de Deus. Fui cuidado por Deus através da minha família biológica e da minha família missionária. Sou grato de modo especial pelo dom de viver nesta Comunidade, que sinto ser verdadeiramente a minha família, onde experimento fraternidade, amizade e cuidado mútuo. Sou grato pela dádiva de celebrar este aniversário como parte da equipe do Governo Geral; com eles vivo uma profunda comunhão, apesar das nossas diferenças; estou feliz e encorajado pela nossa abertura para aprender, discernir e colocar todo o nosso ser a serviço da nossa querida Congregação. A esta lista, devo acrescentar os meus amigos e tantos outros que enriqueceram a minha vida e foram instrumentos do Senhor na formação do meu serviço sacerdotal. Lembro-me de modo especial de tantas pessoas queridas de uma favela nos arredores de Lima, em Pachacuti, onde exerci o meu ministério durante onze anos, acompanhando os seminaristas aos fins de semana. Eles me ensinaram a viver próximo das suas vidas em meio às suas difíceis situações; ali também aprendi a afastar do meu coração muitas pretensões e artifícios que não correspondiam ao Evangelho de Jesus. Deus esteve presente de muitas maneiras na minha vida e sou grato por isso nas palavras que brotaram do Coração de Maria: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque atentou para a humildade da sua serva…” (Lc 1,47-48).
A segunda palavra é perdão. Estou ciente das minhas fraquezas e pecados. Quero pedir perdão a Deus pelas minhas muitas infidelidades ao seu amor, pelas minhas concessões e por não ter vencido todas as tentações que vêm do clericalismo. Acima de tudo, peço perdão pela minha resistência ao seu constante chamado à conversão e a deixar-me transformar segundo o seu coração. Por meio de vocês, peço perdão a tantas pessoas a quem, consciente ou inconscientemente, causei sofrimento durante estes 25 anos. E peço perdão àqueles que vivenciaram de perto as minhas fraquezas; aceito a vossa compreensão, correção e ajuda. Felizmente, estou convencido de que o amor do Senhor é capaz de redimir todo pecado e que a sua graça é sempre superabundante. Com o salmista, sou testemunha de que “o Senhor cura os de coração quebrantado e sara as feridas…”.
A palavra final é renovação. O Evangelho de hoje nos mostra um Jesus que tem compaixão pelo sofrimento do povo e percorre cidades e vilarejos para proclamar o Evangelho. Esta página do Evangelho reflete tão bem o estilo missionário de Jesus, que tanto apaixonou nosso Pai e Fundador e que está no coração do nosso carisma. Lembro-me de quando li pela primeira vez a Autobiografia do Padre Claret e fiquei fascinado por seu estilo missionário; foi o que me motivou a deixar tudo. Hoje, sinto-me novamente chamado por Jesus para renovar o sim que dei há 25 anos, para viver como sacerdote à maneira do Padre Claret. Ele me pede para continuar a fazê-lo nesta comunidade local e a serviço da comunidade congregacional universal. Creio que, neste momento da minha vida, não tenho outro sonho ou propósito senão tornar real o que o Evangelho de hoje nos diz: “De graça recebestes, de graça dai”.






