“O olhar do Papa abraçou a nossa missão”: Pe. Santi, CMF, reflete sobre a visita papal às Ilhas Canárias

Jun 25, 2026 | Fátima

O Pe. Santiago Cerrato (“Santi”), CMF, recorda o seu testemunho diante do Papa Leão XIV na Catedral de Santa Ana, em Las Palmas de Gran Canaria (Espanha), em 11 de junho de 2026, e reflete sobre as principais mensagens da visita papal às Ilhas Canárias.

Pe. Santi, CMF, durante o encontro do Papa com sacerdotes, religiosos e agentes de pastoral na Catedral de Santa Ana, o senhor tomou a palavra para dar o seu testemunho. Em nível pessoal e como missionário claretiano, que sentimentos o moveram ao falar em nome da comunidade, e como descreveria a proximidade e o olhar atento do Papa Leão XIV enquanto ele ouvia sobre a realidade das ilhas?

Tudo começou alguns meses antes da visita do Papa à Espanha, quando o Vaticano confirmou os eventos e encontros nos diferentes locais que o Santo Padre visitaria. Nosso bispo, Dom José Mazuelos, propôs o encontro na Catedral de Las Palmas como uma oportunidade para o Papa conhecer, direta e pessoalmente, a realidade pastoral da diocese.

Como o tempo era limitado, as intervenções oficiais — por assim dizer — restringiram-se à saudação inicial do bispo e a dois testemunhos: um em nome do clero e da vida consagrada, e outro em nome da atividade pastoral da Igreja e do compromisso dos leigos com a obra de evangelização.

Nesse contexto, recebi o convite do bispo para falar ao Papa em nome de todos, na qualidade de sacerdote, pároco, decano e missionário claretiano. Sinceramente, a princípio, eu não tinha plena consciência do que isso implicaria, mas minha alma e meu coração estavam repletos de gratidão, de um sentimento de imenso privilégio e de uma alegria imerecida. Tudo isso vinha acompanhado da paz que sempre acompanha as coisas de Deus — coisas que chegam até você sem que você as tenha buscado ou solicitado.

Embora eu não pudesse anunciá-lo publicamente e tivesse de preparar o testemunho a tempo de enviá-lo a Roma, eu sabia que contava com o apoio da minha comunidade, dos meus irmãos claretianos da Congregação e da equipe diocesana que coordenava todo o processo. Aos poucos, fui percebendo que a minha intervenção precisava incluir a presença, a dedicação, a vida e a missão de todo o clero e das pessoas consagradas da ilha. Precisava também transmitir a novidade evangélica trazida pela visita de Claret, que, há 178 anos, se tornou uma força motriz para a evangelização e para a renovação espiritual e social na ilha.

Então, aconteceu algo que não havia sido planejado, nem poderia ter sido: O OLHAR. Fico muito feliz que você tenha me perguntado sobre a proximidade do Papa e o seu olhar. Eu estava nervoso? Não excessivamente. Deus me concedeu serenidade e paz ao enfrentar situações complexas ou inesperadas.

Olhando para trás agora, senti uma alegria imensa desde o início daquela manhã, quando todos os irmãos da comunidade saíram juntos de casa e caminharam até a catedral, que ficava a cerca de 30 minutos de distância. A partir de então, tudo se tornou uma aventura e uma experiência que prometia ser única — uma graça do céu.

O Papa chegou, entrou na catedral e abençoou a igreja. Parou diante do sacrário e ajoelhou-se em oração por alguns instantes. Seguiram-se a saudação do bispo, a proclamação da Palavra de Deus e o canto do salmo. E então chegou a hora da minha intervenção.

Assim que me posicionei diante do microfone, encontrei o olhar do Papa: um olhar que me transmitia tranquilidade, proximidade, bondade e um acolhimento caloroso, sem qualquer sinal de nervosismo ou pressa. Senti aquele olhar como uma porta escancarada, acolhendo cada palavra que saía dos meus lábios. Era o olhar de um amigo, de um irmão e de um peregrino que percorre o mesmo caminho: o caminho em direção a Deus, de quem viemos.

Senti que o seu olhar abraçava as lutas e a solidão que por vezes vivenciamos na nossa consagração, bem como a nossa esperança e alegria pelo dom da vocação que recebemos.

O Papa Leão XIV incentivou a Igreja nas Ilhas Canárias a “abraçar a Cruz de Cristo” e a manter-se firme em sua caminhada, apesar das dificuldades. Como claretiano — pertencente a um carisma que surgiu quando Santo Antônio Maria Claret realizava seu trabalho missionário a pé por essas mesmas terras —, de que maneira o chamado do Papa à coragem e à fidelidade ressoa com as raízes históricas de sua Congregação no arquipélago?

Devo começar dizendo que quem não visitou as Ilhas Canárias não consegue imaginar a grata memória que se guarda de Claret, as marcas evangelizadoras que ele deixou e o estilo missionário que introduziu na sociedade canária, no clero e na cultura e política da época. Ele não deixou ninguém indiferente. Historiadores de renome concordam, de modo geral, em descrever a história recente das ilhas como tendo um “antes” e um “depois” da presença de Claret no local.

Nosso Superior Geral, que visitou a ilha diversas vezes, vivenciou aqui um momento histórico jubilar importante: o 175º aniversário da chegada de Claret à ilha, exatamente um ano antes do Jubileu da Congregação. Algumas das palavras que dirigi ao Santo Padre vieram do coração, pois eu as guardava com carinho desde a visita do Superior Geral: a Congregação Claretiana nas Ilhas Canárias vivencia uma sinergia e uma comunhão particularmente genuínas e inovadoras no seio da Igreja local.

Nesse contexto de comunhão e colaboração, o espírito claretiano oferece a estas terras desafios e objetivos traçados pelo próprio Fundador. Como disse certa vez o grande missionário claretiano Pedro Fuertes Combarro, CMF, não devemos esquecer que o povo das Ilhas Canárias já era claretiano antes mesmo de os próprios missionários o serem. De fato, dois meses depois de deixar as ilhas rumo à Catalunha, o Pe. Claret fundou a Congregação.

As dificuldades, a oposição, a pobreza espiritual e a deterioração social existentes nas Ilhas Canárias na época de Claret eram maiores do que aquelas que enfrentamos hoje. É sob essa perspectiva que compreendo o apelo do Papa a toda a Igreja nas Ilhas Canárias e em todo o mundo:

“Incentivo vocês a continuarem avançando, firmemente enraizados n’Ele, para que possam seguir navegando com coragem por este novo período da história. Ao encontrarem dificuldades, levantem os olhos e peçam ao Espírito Santo a graça de viver unidos na fé, na esperança e na caridade.”

Sinto que o Papa Leão, em resposta ao que ouviu e testemunhou, enfatizou estas palavras de Claret — que permanecem relevantes e atuais hoje — ao definir o missionário claretiano:

“É um homem abrasado de amor, que espalha as suas chamas por onde quer que vá. Deseja ardentemente e empenha-se, por todos os meios possíveis, em incendiar o mundo inteiro com o amor de Deus. Nada o intimida; ele encontra alegria nas privações, acolhe o trabalho, abraça os sacrifícios e pensa apenas em como seguir e imitar Jesus Cristo — rezando, trabalhando e suportando tudo pelo bem de todas as almas.”

Durante sua visita, o Papa descreveu o povo das Ilhas Canárias como um “povo sem fronteiras” e recordou que “a dignidade humana não tem passaporte”. Por meio de organizações como a Proclade Canarias, os claretianos de Las Palmas estão profundamente inseridos no tecido social das ilhas. De que maneira essa mensagem poderosa do Pontífice incentiva o seu trabalho diário e o seu compromisso com os mais vulneráveis ​​e com a realidade da migração ao longo da costa?

Onde quer que haja um missionário e uma missão apostólica inspirados pelo carisma claretiano, deve haver sempre o compromisso de proclamar e levar o Evangelho a todos, especialmente aos mais necessitados e aos feridos por injustiças estruturais.

Por meio de suas ações e palavras, o Papa não apenas elevou o nosso olhar, mas também levantou a sua voz, mostrando-nos onde devemos entrar e permanecer nos lugares de missão: as periferias. Ao fazê-lo, estamos simplesmente imitando o Mestre e Senhor.

Essa opção de cuidar dos vulneráveis e acompanhar os mais frágeis é fomentada e cultivada nos dois principais centros missionários para os quais fomos enviados na ilha. O primeiro é a escola, como plataforma de evangelização, que deve continuar a fazer uma escolha decisivamente evangélica — sem medo ou hesitação — no âmbito das estruturas educacionais. O segundo é a paróquia, lugar de acompanhar, formar e evangelizar as pessoas nas diferentes etapas de sua caminhada de fé, acolhendo ao mesmo tempo aqueles que chegam, batem à porta, pedem ajuda ou precisam de um lar acolhedor — aquilo que o Papa Francisco chamou de hospital de campanha.

Há também um terceiro campo de missão, acompanhado, orientado e apoiado pelos Missionários Claretianos, que representa um compromisso genuíno com os mais vulneráveis, com a questão migratória e com a pastoral carcerária. Permitam-me, neste contexto, mencionar um irmão que, com competência e profissionalismo, tem passado décadas construindo pontes através deste mundo de fronteiras: o Pe. Dionisio Redondo, CMF.

Ele formou equipes, promoveu o trabalho em rede e fomentou a sinodalidade, apoiado por um “baluarte” que torna credível, hoje, toda a obra de evangelização: a comunidade CMF.

A mensagem do Santo Padre, que percorreu este país e este arquipélago de norte a sul, encontra expressão concreta no trabalho que os Missionários Claretianos nas ilhas têm promovido de forma constante, ano após ano: oferecer formação, acompanhar as pessoas, criar estruturas e fomentar a comunicação e a comunhão em toda a realidade diocesana. Esse trabalho é realizado também em cooperação com organizações civis dispostas a unir-se ao projeto de construção do Reino de Deus por meio da justiça, da paz, da solidariedade e da fraternidade universal.

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Um dos pontos que o Santo Padre enfatizou com mais força na catedral foi a necessidade de construir juntos e de permanecer uma Igreja unida e missionária, que caminha em comunhão. Sob a perspectiva das comunidades, escolas e paróquias claretianas de Las Palmas, que passos práticos podem ser dados para responder ao chamado à sinodalidade que o Papa nos confiou?

Em meu testemunho e nas palavras que dirigi ao Santo Padre, expliquei que uma das riquezas desta diocese é a sinergia e a colaboração entre os diversos carismas religiosos e de vida consagrada, o clero e as forças vivas do laicato na realização do trabalho pastoral e da evangelização.

Nesse sentido, e por todas as razões que mencionei, a comunidade claretiana dá uma contribuição significativa, reconhecida e apreciada em toda a diocese. Somos chamados de filhos de “El Padrito”, o nome carinhoso dado pelo povo das Ilhas Canárias a Santo Antônio Maria Claret.

Sempre buscamos estar presentes e dispostos a colaborar na diocese, onde quer que tenhamos sido solicitados ou chamados. Neste momento, formamos uma comunidade numerosa de padres — oito, atualmente — e cooperamos muito bem com o clero diocesano sempre que somos chamados a auxiliar em tarefas específicas ou nas áreas missionária e evangelizadora próprias do nosso carisma.

Após a visita do Papa, nossa tarefa, como religiosos inseridos nesta Igreja local, é continuar contribuindo para boas práticas de evangelização; fortalecer os processos de evangelização e de iniciação cristã; e acompanhar e auxiliar o clero diocesano, que se sente sobrecarregado pela escassez de vocações e pela imensa carga de trabalho pastoral e paroquial.

Devemos também ser um farol e uma luz, continuando a colaborar no ministério junto aos migrantes, na inclusão social, no ministério da saúde, na educação, na pastoral familiar, na pastoral da juventude e na pastoral vocacional.

Costuma-se dizer que a parte mais importante de uma visita papal começa no dia seguinte ao retorno do Pontífice a Roma. Com as palavras do Papa Leão XIV ainda ecoando no Estádio de Gran Canaria e em Arguineguín, qual é o principal desafio ou “fruto” que a comunidade claretiana de Las Palmas está adotando como roteiro para o futuro imediato?

As palavras do Papa Leão confirmaram e fortaleceram os nossos sonhos como Congregação de missionários e como comunidade claretiana inserida na Igreja local.

Assumimos os seguintes desafios:

Primeiro: reconhecer que somos chamados, amados e enviados por Aquele que fixou o seu olhar em cada um de nós. Não somos chamados por Deus para alcançar o sucesso, nem as nossas obras apostólicas se sustentam em aplausos ou na eficácia numérica. Elas se sustentam na fidelidade e na gratidão perseverante, que nos capacitam a crescer, a cada dia, na confiança Naquele que nos chamou e nos capacitou para a missão, mesmo em meio às nossas próprias fraquezas.

Devemos também oferecer um testemunho autêntico de comunhão, respondendo ao chamado de Deus para cuidar uns dos outros dentro da comunidade.

Em segundo lugar: colocar a Palavra de Deus no centro. Pela própria definição do nosso carisma, somos servidores da Palavra de Deus — uma Palavra que deve ser ouvida, guardada no coração, proclamada e posta em prática por meio de nossas vidas.

Devemos sempre colocar a Palavra de Deus no centro da nossa atividade missionária em todos os âmbitos do ministério pastoral. Deve ser uma das luzes que guiam o nosso roteiro neste momento particular da história. Devemos também criar estruturas que permitam fazer o primeiro anúncio missionário com criatividade e ousadia.

Terceiro: Responder ao clamor do nosso povo. Muitos dos nossos irmãos e irmãs sofrem o desenraizamento de sua terra natal e são forçados ao exílio pela injustiça ou ao fugirem da exploração por redes criminosas. Famílias e bairros inteiros são marginalizados e excluídos em nossas próprias cidades e vilas, ao passo que muitas áreas da cultura contemporânea ou desconhecem ou rejeitam o Evangelho.

Diante dessas realidades, devemos voltar um olhar compassivo e comprometido para a sociedade e seus desafios, a fim de levar a Boa Nova de Deus.

Fora do texto preparado, agradeço a Deus pela visita do Papa à Espanha e, em particular, às Ilhas Canárias. A sua presença nos comoveu e nos incentivou a continuar depositando nossa confiança n’Aquele que nos chamou.

Aqui e agora, somos chamados, como disse Claret, a fazer com que Deus seja conhecido, amado, servido e louvado por todos.

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